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A cada dia que passa, fica mais visível a urgência da psicologia em nossa sociedade. Todavia, de que psicologia estou falando? Você pode facilmente indagar: “Pablo, onde estão os benefícios da psicologia atualmente?” ou até mesmo: “O Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade. Onde está a psicologia?”
Hoje, eu quero trazer uma reflexão sobre os objetos da psicologia. Sim, um olhar epistemológico sobre essa ciência que é tão falada, tão vendida e que não pode ser vista apenas como uma mera ciência desenvolvida no século XIX, que se limita apenas ao que sentimos individualmente.
Para a Organização Mundial da Saúde, a saúde mental pode ser considerada como um estado de bem-estar vivido pelo indivíduo, que possibilita o desenvolvimento de suas habilidades pessoais para responder aos desafios da vida e contribuir para a sociedade. Mas, afinal, devemos compreender as bases que sustentam a ideia de psicologia, a definição inicial dos objetos de estudo, os campos de investigação e, claro, como isso vem se desenvolvendo desde o surgimento da ideia de psique.
Antes mesmo de um método, é necessária a compreensão do objeto que se pretende estudar. Seria a psicologia a ciência do inconsciente? Seria a psicologia a ciência do comportamento? A psicologia tornou-se uma das áreas de estudo mais populares na grande maioria das universidades. Por outro lado, os problemas de saúde mental vêm se intensificando e ganhando, a cada dia, um novo elemento. Vale ressaltar que saúde mental não é algo isolado, mas o resultado das influências do ambiente ao nosso redor. O termo para essa interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais é o que confere à mente características biopsicossociais.
A ciência moderna nos trouxe muitos benefícios, como as noções de experimento, de replicabilidade, modelos matemáticos e estatísticos que nos permitem fazer previsões com muita precisão, e tudo isso nos trouxe melhorias de vida. Porém, quando tratamos de assuntos que se referem a alguns objetos específicos, percebe-se que uma certa atitude perante a ciência moderna pode ser um tanto quanto inadequada. A ciência moderna nasce com a ideia de um recorte da realidade; ou seja, existe um método que considera aspectos materiais, matematizáveis e mecanicistas, capazes de prever resultados. A partir desse método, selecionamos objetos da realidade para que se adequem a ele.
Para atingir o objetivo pretendido, preciso apresentar um modelo filosófico que se opõe a essa visão moderna de ciência, conhecido como realismo clássico. Basicamente, o realismo clássico parte de uma visão epistemológica e ontológica que defende a existência de uma realidade objetiva, independente da consciência, percepção e observação humana. Percebe a diferença? No primeiro modelo, temos o idealismo, que traz o foco ao sujeito que conhece; o realismo, por outro lado, tem o seu foco no objeto. Mas, afinal, se a psicologia moderna é funcional e o objeto da sua investigação está correto, por que os resultados são quase imperceptíveis?
O que mais escutamos é uma crença quase cega no autoconhecimento, como se este fosse certeiro; mas faltam alguns detalhes. A ilusão do autoconhecimento e a esperança de que é possível viver uma existência livre de conflitos internos e de todas as mazelas sociais inerentes à vida humana entorpecem o homem moderno, que pula de terapia em terapia, sempre em busca de um elixir milagroso para resolver seus problemas.
O homem moderno é alienado de sua própria consciência, entorpecido pela vaidade do próprio ego, cultuando a presunção de um saber imaginário, fechado em si mesmo. A dificuldade moderna consiste, em larga medida, na ausência de conformidade: o homem não consegue mais lidar com aquilo que não controla. O homem moderno não aceita as coisas como elas são; ao contrário, investe toda sua energia e recursos na construção de um mundo voltado para si e para seus gostos , o império do prazer.
No século XX, a fenomenologia surge como um campo da psicologia que recupera algo que havia sido perdido, ou seja, um método filosófico que estuda as estruturas da consciência e como as coisas aparecem na experiência vivida. Dito de outro modo, é a suspensão de juízos prévios para a compreensão do significado dos fenômenos: “às coisas mesmas”.
Para tentarmos compreender essa problemática epistemológica, é preciso partir de duas possibilidades: unidade ou dispersão.
É comum, em manuais brasileiros de psicologia, a noção de que a psicologia é um lugar de dispersão de saberes. Mas, afinal, faz sentido uma ciência sem unidade? Se não houver algo que unifique um determinado campo do saber, é possível que a sua própria classificação sofra esse impacto, o que nos levaria à noção de psicologias.
Sem relembrarmos as referências dos objetos originais, é possível que a psicologia sofra, a cada dia, uma nova mutação, sem saber para qual direção, sustentada pelos avanços da tecnologia. Ora, a tecnologia é um conjunto de ferramentas que devem auxiliar a vida humana, e não ditar o rumo que ela percorre. Atualmente, o indivíduo adotou uma lógica de vida algorítmica que faz com que ele nem se dê conta de questões existenciais e até mesmo metafísicas que o atravessam. O resultado: a ausência de um sentido para a vida e uma multiplicidade de transtornos psicológicos. Volto a perguntar: “Onde está a psicologia?”.
Para facilitar a compreensão, quero me debruçar sobre duas das escolas de psicologia que dominam o mercado de saúde mental por, no mínimo, cinquenta anos: a psicanálise e a TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental). Antes de continuar, preciso deixar claro que o artigo não tem o objetivo de menosprezar tais escolas, nem descredibilizá-las. Entretanto, é necessário que sejam expostos os resultados obtidos até aqui de uma maneira geral. Se você está lendo este artigo e teve benefícios com uma das duas correntes da psicologia, não tome a explanação a seguir como um insulto, mas como uma provocação.
Um leitor cuidadoso de Freud vai perceber alguns pontos que causam certa curiosidade ao amante da psicologia, como, por exemplo, a ausência de conclusões e provas confiáveis, assim como a abertura para o ilógico, sem falar em seu tom autoritário (o que possivelmente foi fator decisivo em suas relações instáveis ao longo da vida). Freud sustentava a ideia de que o que acontecia na mente do homem era regido por forças sombrias ainda não descobertas (e que jamais seriam), a não ser pelas interpretações do analista, que, de tempos em tempos, aparece com uma explicação do significado real das coisas — e que, se não é aceita, é vista como resistência, o que resulta em mais análise por tempo indeterminado. O indivíduo perde sua capacidade de enxergar a realidade e desenvolve um culto a si mesmo. A busca pelo significado oculto dos elementos triviais vai distanciando o indivíduo da sua capacidade contemplativa, criando mais confusão do que propriamente esclarecimento.
Quando começo uma ciência, não posso inventar o objeto dela; ao contrário, preciso defini-lo. Quando uma corrente de psicologia surge e tenta construir o seu objeto do zero, ela não causa interesse, pois sabemos que é algo que surgiu apenas na cabeça do seu criador. Fantasia!
Aqui se faz necessária uma pequena digressão para a filosofia escolástica, que já nos entregou as bases de definição de um objeto, seguindo a noção de que, quando um objeto aparece para mim, ele irá revelar dados intrínsecos de sua estrutura e a maneira pela qual deve ser estudado. Então, vamos por partes: em primeiro lugar, o objeto material — resumidamente, o que uma ciência estuda? A física, por exemplo, estuda a natureza e a matéria. Também temos o segundo elemento para a definição do objeto, que é o objeto formal, ou seja, o ponto de vista do qual partimos para estudar aquele objeto material. Seguindo o exemplo da física: para conhecer a natureza da matéria, é necessário um ponto de vista filosófico; por outro lado, para prever o comportamento da matéria quando ela é submetida a certa circunstância, já se faz necessário um método empírico, mais próximo da ciência moderna. Agora sim: pela própria natureza do objeto material e pela natureza do ponto de vista adotado, surge, evidentemente, um método.
A pergunta “O que é a vida?” é extremamente complexa e, para exemplificar, vou usar outra ciência moderna de enorme importância: a biologia. A biologia tem como seu objeto material os seres vivos; porém, sob que ponto de vista? O objeto formal da biologia moderna são as composições e alterações materiais que constituem os seres vivos e, por isso, ela se torna uma ciência subsidiária da química, da física e da própria matemática. Veja: se utilizo esse ponto de vista para compreender o que é a vida, ele se mostrará insuficiente, uma vez que, para essa resposta, necessito de outro objeto formal, ou seja, de outro ponto de vista — e este me levará a outro método, seja ele abstrativo ou filosófico.
E aqui está o meu ponto! Todas essas formas são científicas; entretanto, o que muda é o ponto de vista. Obviamente, certos pontos de vista não serão abarcados pelo método. Muitas pessoas encaram apenas o ponto de vista da ciência empírica e ficam escravas do método e, o que é pior, tentam encaixar suas vidas em ditames racionais.
Chegamos, então, para falar da ciência que foi extremamente bem-sucedida nas instituições e que, até hoje, tenta ser aquela que toma para si o rótulo de psicologia “mais” científica que as outras: a TCC. Atualmente, é muito difícil explicar o comportamento humano apenas pelo esquema behaviorista de estímulo e resposta. A perspectiva behaviorista vê o homem quase como um animal, um pombo que pode jogar tênis de mesa. B. F. Skinner, um dos maiores nomes do behaviorismo, dizia que a discussão entre experiência subjetiva e consciência sufocava o aprofundamento da investigação. Mesmo com as ressalvas feitas à psicanálise, ao menos os psicanalistas buscaram a compreensão dos pensamentos humanos.
Skinner acreditava ter encontrado o princípio fundamental que daria uma resposta completa para a vida humana. Ele era claro ao afirmar que a sociedade poderia ser regida por princípios behavioristas; para isso, seria preciso definir uma meta e condicionar as pessoas a atingi-la. Em termos behavioristas, não existe autoconsciência, com base na ideia de que os conteúdos da consciência não podem ser estudados. E aqui podemos perceber o “tiro no pé”, pois, se isso estivesse correto, só poderíamos chegar a uma única conclusão: toda a psicologia que pretende auxiliar o indivíduo a compreender a si mesmo estaria destinada ao fracasso.
No livro Evasivas Admiráveis, o psiquiatra Theodore Dalrymple trata a história da psicologia como o mito de Sísifo. Sísifo recebeu, como punição por sua malícia, a condenação de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha e, toda vez que quase chegava ao topo, a pedra rolava montanha abaixo, recomeçando tudo novamente ad aeternum. A psicologia costuma anunciar grandes avanços, porém de forma precoce, e logo eles se mostram insuficientes, sendo facilmente substituídos por uma nova escola e assim por diante.
Mas, afinal, o que estuda a psicologia?
Psique foi traduzida para o latim como anima, ou alma. Veja: aqui não estamos falando de nenhum aspecto religioso, ainda que a religião utilize o conceito de alma; ela também utiliza o conceito de corpo, por exemplo, e nem por isso este é restrito a ela. A concepção de alma não nasce na religião, e é muito importante deixar isso claro.
A psicologia é uma ciência que estuda o ser humano a partir do ponto de vista do seu princípio de vida. Alma, anima, psique são os termos que nos ajudam a definir o objeto material de estudo da psicologia, que é a psique, o princípio de vida que faz com que o ser humano seja o que é. Para isso, podemos partir de diversas perspectivas para estudar esse princípio de vida. Podemos partir do monismo, que nada mais é do que uma corrente filosófica que defende que a realidade é composta por um único princípio; e aqui podemos usar o princípio freudiano de que existiria apenas um princípio, e que este seria material.
Para Freud, as transformações da matéria resultariam no surgimento da mente; ou seja, a mente seria um subproduto das transformações materiais. Também podemos partir de um dualismo cartesiano, que nos oferece a noção de uma substância pensante (res cogitans) e uma substância material (res extensa).
A visão que utilizo para cuidar dos meus pacientes é conhecida como hilemorfismo, ou seja, a noção de matéria e forma que vem de Aristóteles e implica os conceitos de ato e potência, que meus pacientes tanto ouvem falar. Não quero colocar essa visão como melhor que as outras, apenas mostrar a necessidade de avaliar a visão de mundo do seu psicólogo e até mesmo ampliar a sua, para que você possa colher os benefícios da psicologia.
Compreendo que a forma do ser vivo é a sua alma e, portanto, a noção de corpo já pressupõe a noção de alma, a meu ver. Dito de outro modo, o corpo é matéria organizada por um princípio ordenador. Não enxergo a matéria solta; percebo o corpo como uma matéria enformada.
Buscando ser justo, preciso deixar claro que a psicologia não é apenas a distinção entre doutrinas filosóficas; ela também tem sua atuação prática, voltada para a intervenção em transtornos e dores que atravessam o indivíduo em sua vida. O campo da psicoterapia pressupõe o objeto da alma e do princípio de vida que vimos até aqui; entretanto, o foco é outro. Aqui, é necessário dar algum sentido a essa perspectiva interventiva em psicoterapia e, para isso, preciso apresentar dois conceitos fundamentais: a felicidade e o sofrimento.
Esses dois são categorias da ética clássica, que partia do princípio de que todos os seres humanos desejam a felicidade e discute se ela é possível e, sendo possível, como atingi-la, enfim, uma reflexão racional sobre a felicidade e o seu oposto. Dessa forma, surgem alguns questionamentos: “A felicidade é oposta ao sofrimento?” “Existe a possibilidade de ser feliz perante o sofrimento?”
Essa discussão enriquece o conhecimento sobre a psicologia e nos mostra que, sim, é possível termos alguns objetos e suas classificações; todavia, temos apenas um ser humano a partir do ponto de vista do seu princípio vital e, desse princípio, podemos destacar sua finalidade de felicidade, sua operação em direção a ela, assim como sua experiência frente ao sofrimento.
Minha provocação não afirma que as terapias modernas não valem nada; muito pelo contrário. Deixo claro que, a meu ver, se usadas de forma seletiva e discriminada, podem trazer benefícios ao indivíduo. O alerta é sobre a natureza audaciosa de profissionais que alegam competência para assuntos que vão além da compreensão técnico-científica, com base em visões limitadas, e o risco natural da subversão do nosso objeto de investigação.
Meu objetivo com toda a apresentação até aqui foi ilustrar que a psicologia, em sua essência, jamais pode ser cooptada pela ideologia, pelo maniqueísmo, pela propaganda, pela política, pela engenharia social e, muito menos, pelo utilitarismo.
No desejo de desconstruir o homem, surge o ímpeto de construir novas normas de controle social, impondo cada vez mais restrições às suas características ontológicas, metafísicas e teleológicas, para transformá-lo em um escravo do prazer, um ser imoral e cada vez mais distante de um sentido para a vida.
Agir livremente, como um ser responsável, implica renunciar a uma visão de mundo centrada exclusivamente em si mesmo. Essa visão aliena o homem, afasta-o da possibilidade de sacrificar-se e, consequentemente, de aperfeiçoar-se.
Portanto, conheça a psicologia e para quê ela serve para evitar cair em contos de fadas que te impedem de avançar!
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