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Hiperconectividade – A espetacularização da vida
A palavra “rede” traz uma ideia interessante: algo que liga, mas também algo que prende. Ora, seríamos nós, psicólogos, aqueles que ignorariam o impacto da hiperconectividade na estrutura da subjetividade? A hiperconexão produz novos tipos de subjetividade? Poderia a logoterapia lançar sua luz sobre esse fenômeno? É possível alcançar sentido na imanência? Essas e outras perguntas serão abordadas neste artigo.
Duas bases sólidas sustentam a logoterapia: a autotranscendência e a capacidade de autodistanciamento. A internet não para; desse modo, um fluxo contínuo de informações exerce um impacto psicológico constante. Um dos efeitos mais sentidos é o da atenção. A pressão causada por estímulos digitais corrói a capacidade de contemplação e de atenção profunda. Qualquer redução desses princípios psicológicos pode causar danos intrapsíquicos e intersubjetivos ao indivíduo. Os prejuízos podem ser percebidos em diversas áreas, desde o enfraquecimento do juízo acerca da realidade até a transformação da vida banal em espetáculo.
Martin Heidegger foi um filósofo fundamental para a compreensão da perspectiva que sustenta este breve artigo. Em sua obra “Ser e Tempo”, uma das mais importantes da filosofia do século XX, Heidegger observou que a personalidade individual — a pessoa humana — precisa se conquistar e se afirmar de modo autêntico, por meio da própria liberdade, em oposição ao fluxo inautêntico das pessoas que apenas reproduzem comportamentos alheios, sem coragem ou força para assumir uma identidade própria. Ele denomina esse fenômeno de “ditadura impessoal”.
Heidegger percebeu um paradoxo: a pessoa que não está integrada à massa sente-se alienada; contudo, a própria integração à massa também a aliena. Assim, podemos perceber uma inversão no processo de massificação.
Contemporâneo de Heidegger, Sigmund Freud publicou, em 1921, um de seus trabalhos mais impactantes, intitulado “Psicologia das Massas e Análise do Eu”. Nesse texto, Freud aponta a oposição entre a psicologia individual e a psicologia das massas. Ele descreve características desse fenômeno, como a identificação afetiva com líderes, a elevação desses líderes à posição de ideal do eu e a introjeção de seus valores. Entretanto, destaca especialmente o rebaixamento do pensamento crítico do indivíduo inserido na massa.
Diante dessas reflexões, deparamo-nos com problemas extremamente atuais, frequentemente observados no contexto clínico. O homem contemporâneo vive para ganhar dinheiro, buscar prazeres, manter-se saudável e, ao mesmo tempo, distancia-se cada vez mais do drama da existência e dos mistérios da vida.
Ao apresentar o conceito de autotranscendência, parto da noção proposta pela logoterapia, que aponta para um marco antropológico fundamental: a existência humana sempre se dirige a algo que não é ela mesma. Nessa perspectiva, o ser humano realiza-se quando se dedica a uma tarefa ou ao amor por outra pessoa, esquecendo-se de si. Para Viktor Frankl, fundador da logoterapia, sem a autotranscendência não compreendemos a neurose de massa da atualidade.
Frankl afirma de maneira enfática que as frustrações contemporâneas são existenciais. O ser humano parece aprisionado entre duas formas de pensamento: ou deseja apenas o que os outros fazem (conformismo), ou faz apenas o que os outros esperam dele (autoritarismo). Soma-se a isso o narcisismo e o exibicionismo como elementos estruturais dessa neurose.
Observa-se hoje um culto à autoexpressão que favorece fenômenos como a autorreferência, na qual tudo se torna publicável e visível. A afetividade egocêntrica contemporânea evidencia uma imaturidade decorrente da transformação da vida em uma “casa transparente”.
Transformar a vida em espetáculo é uma manifestação do que Viktor Frankl denominou “vácuo existencial”: a tentativa de encontrar significado apenas na realidade material, renunciando à transcendência.
A hiperconexão alimenta a dependência emocional, especialmente quando a autoestima depende da aprovação externa. Nesses casos, as pessoas tendem a “performar” para obter aceitação, gerando tensão mental, pois o comportamento passa a ser moldado pelas expectativas alheias, e não por valores pessoais. Além disso, estudos indicam que a dependência de validação externa torna o bem-estar instável.
A logoterapia não é uma panaceia. Não se pretende aqui atribuir superioridade a essa abordagem em relação às demais correntes da psicologia, mas oferecer um caminho possível de compreensão e reflexão.
Para auxiliar na busca por maior equilíbrio, seguem algumas práticas iniciais:
No tocante à dependência emocional:
Seu senso de identidade deve ser construído internamente, e não emprestado dos outros.
Quanto ao vazio existencial:
Não se pretende demonizar a hiperconectividade. A vida online trouxe inúmeros benefícios, incluindo conforto, acesso à informação e visibilidade para muitas pessoas. O comércio também foi amplamente favorecido.
Diante disso, reconhecemos que somos atravessados por pontos cegos, justamente por estarmos imersos na realidade que buscamos compreender. Ainda assim, acreditamos na integração de saberes como caminho para uma psicologia eficaz em tempos tecnológicos.
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