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Em tempos de inteligência artificial, quem tem a natural é rei!
Você já se deparou com a distinção entre conhecimento teórico e conhecimento prático, não é mesmo? O famoso “falar é fácil” que presenciamos em diversos momentos de nossa vida. Afinal, o conhecimento prático permite o mesmo grau de certeza que o conhecimento teórico? Meu objetivo com este artigo é apresentar que os vários objetos de conhecimento admitem vários graus de certeza distintos.
Aristóteles dizia que não faz sentido pedir uma demonstração no campo da ética, e aqui falamos de uma demonstração no seu sentido geométrico, euclidiano, assim como seria insensato aceitar uma argumentação no campo da matemática, já que esta carece de demonstração e exatidão.
Assim como pensamos nesses graus de certeza distintos com os exemplos da ética e da matemática, também podemos ampliar este entendimento para o âmbito da psicologia, para o âmbito das ciências naturais e, principalmente, para a nossa vida. Um problema sério na vida de muitas pessoas é exigir um nível de certeza que é impossível, é querer ter um grau de segurança e de controle que é inviável para determinado tipo de realidade, simplesmente por ser uma realidade humana.
Na vida humana existe o fator liberdade, ou seja, ainda que existam certos padrões, certas tendências no comportamento humano, sempre haverá exceções. Diversos fatores estão envolvidos nas soluções de problemas práticos, e isso se deve à causa material das coisas. A matéria tem uma tendência a se decompor e pode facilmente apresentar defeitos. Sim, o defeito existe e frequentemente se apresenta, e isso é fundamental na observação e compreensão dos entes materiais.
Platão defende a ideia de que aquilo que é perfeito é imaterial, justamente por pensar muito de forma matemática. O filósofo acreditava que a matemática lhe oferecia verdades que funcionam sempre, por ser um campo que está abstraído do material. Ela serve para contar, para medir quantidade, mas os números em si são imateriais, são realidades relacionais que não estão ligadas à matéria.
Quando entramos no âmbito da matéria, é possível perceber que um número determinado de fatores não vai dar certo, ou alguns vão nascer defeituosos. O ser humano é assim: por diversos motivos materiais podem ocorrer defeitos em sua forma e, mesmo assim, é possível fazer ciência com um grau de exatidão razoável.
A ciência física, química e biológica trabalha com modelos que são, em certa medida, tirados da realidade. O movimento retilíneo uniforme, por exemplo, é um padrão que se faz através de uma abstração, mas, no mundo real, nada está dentro do movimento retilíneo uniforme, já que vários fatores atuam no movimento, fazendo com que ele fique imperfeito. E, mesmo assim, a ciência trabalha com essas abstrações que lhe permitem chegar a um grau de exatidão que é o grau científico. A ciência nos permite prever e explicar diversas reações e elementos disponíveis na realidade e até mesmo formar modelos. O que não podemos fazer é confundir a realidade e toda a sua complexidade com os modelos que a própria ciência traz.
A característica do nosso século é a hipervalorização do conhecimento científico (para que fique claro, a minha percepção é que não foi imerecido; apenas o excesso foi equivocado), por seus aspectos de certeza e controle que ele nos ofereceria.
Na minha prática clínica, frequentemente esbarro com problemas de natureza cartesiana que sempre me deixaram muito intrigado. Descartes propôs um método filosófico que ele extraiu do campo da geometria analítica, que trazia a noção de que o conhecimento matemático permitia ao homem ganhos seguros e que este método evitava erros e fazia com que houvesse um progresso sensível e constante de determinado campo do conhecimento. Seria, basicamente, o método matemático aplicado a todas as áreas.
Existem sistemas morais que as pessoas seguem, mas desconhecem; em sua maioria, tendem a não se identificar com o que você está falando. Todavia, o fato de alguém não compreender o nome e as características de um sistema moral não significa que ela não esteja se orientando exatamente por ele.
Descartes dizia que a dúvida é um pensamento e que, no instante em que a penso, não posso duvidar que penso. Descartes, que se preocupou tanto em descrever com detalhes os pensamentos que vêm antes da dúvida, não teve o mesmo cuidado ao definir o que é o estado de dúvida; ao contrário, ele apenas a afirma, dando assim um salto da descrição diretamente à dedução.
Enxergar a dúvida como um estado, algo fixo, estático, é a sustentação filosófica, mesmo que de maneira inconsciente, para algumas afecções psíquicas, por exemplo, o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). A dúvida é uma alternância entre uma afirmação e uma negação, e, tão logo o indivíduo aceite uma posição perante as duas opções, a dúvida será eliminada. Ao enxergar a dúvida de maneira fixa, Descartes a toma como uma certeza, criando aqui uma relação de identificação com o pensamento, característica presente em diversos quadros sindrômicos e nosológicos atualmente descritos nos manuais de psicopatologia.
A fim de evitarmos uma impossibilidade psicológica no setting terapêutico, costumo conduzir o paciente a uma distinção do modelo cartesiano para uma premissa alternativa que implica duvidar até mesmo da dúvida. O objetivo desta intervenção é fazer com que o paciente entenda que a dúvida não pode servir de fundamento crítico. Aqui, nosso olhar se volta para o que pode estar “por trás” da dúvida.
A dúvida não pode ser um estado, justamente pelo fato de que os sentimentos que a acompanham, sejam eles de curiosidade, esperança e até mesmo ansiedade, não acompanham um juízo deliberado, mas apenas a impossibilidade de afirmar ou negar um pensamento qualquer. Resumidamente, Descartes não suportava Aristóteles!
Descartes dá um valor muito grande àquilo que é matematicamente provado, alegando que seria o resultado mais seguro e, por isso, ele propõe uma política matemática, uma moral matemática e até mesmo uma medicina matemática. E qual o grande problema? A vida não é assim!
O amor de um pai por um filho é passível de medição? Se o pai faz isso, o sentimento do filho é exatamente este? Se o marido for muito bom para a sua mulher, ela vai gostar dele ainda mais? Pode acontecer, mas pode não acontecer! O contrário também é possível: uma pessoa que é maltratada pode, sim, continuar gostando do agressor. Ou seja, não existe equação matemática que garanta as relações humanas. Não existe receita de bolo para a felicidade.
Inclusive, quero deixar claro que não imputo a Descartes a ideia de aplicação do método matemático a toda a realidade; porém, com o passar do tempo, para muitas pessoas começou a se estender a ideia de que aquilo que não fosse provado, medido, irrefutável e cientificamente validado não seria um conhecimento com méritos. Erro grande!
Em 1994, foi publicado o livro “O Erro de Descartes”, do neurocientista António Damásio, que nos mostra todas as influências do sentimento sobre a razão e como essas estruturas estão interconectadas em nossos sistemas cerebrais. O dualismo cartesiano entre mente e cérebro ofereceu à modernidade a compreensão rasa de mente como software e cérebro como hardware. Para Damásio, a afirmação “penso, logo existo” sugere que pensar e ter a consciência de pensar são as bases da existência.
Com base na filosofia cartesiana, surgiram duas correntes de pensamento bem presentes nos dias de hoje: o cientificismo e o naturalismo. O cientificismo diz que a ciência, e, especificamente, o método científico, é a única forma válida de conhecimento e a melhor maneira de resolver todos os problemas humanos. O que faz do cientificismo um grande erro é justamente o fato de a ciência estar certa e, por isso, ela fica embebida do seu próprio poder e acaba se afogando em delírios de onipotência e onisciência, o que explica o fato de a ciência ser idolatrada e até mesmo divinizada por alguns.
Por fim, a divinização da ciência serve de base para suas implicações sociopolíticas e, consequentemente, para todas as alterações impostas para o domínio da sociedade. O naturalismo, por sua vez, é a ideia de que a realidade tem elementos que só podem ser compreendidos e abrangidos pelos sentidos. Fora disso, não existe realidade. Erro grande!
O resultado de toda essa salada feita por Descartes e alguns outros colaboradores é o que hoje é conhecido como Filosofia da mente, que nada mais é do que uma atuação interdisciplinar que visa investigar a natureza da consciência e a sua relação com o corpo e o cérebro, explorando a intencionalidade e a inteligência artificial para resolver problemas como o dualismo cartesiano, entre outros.
O uso constante das neurociências e da neurologia para apontar como a nossa liberdade é nada mais que reações bioquímicas puramente materiais.
Para a psicologia, este tema é valioso, pois o desejo de controle presente em pacientes ansiosos ou com transtornos de natureza obsessiva causa um enorme sofrimento e, visando à eficácia do processo terapêutico, procuro apresentar o risco inerente à existência, aceitar a parte que não vamos ter controle e que podemos chegar até perto, mas não vamos dominar totalmente. Saber o próprio tamanho e o tamanho do mundo é indispensável para um bom funcionamento psicológico.
Saber os graus de certeza vai te ajudar a hierarquizar seus pensamentos, suas expectativas e seus sofrimentos. O controle excessivo sufoca, e ele é fruto de um olhar que não sabe reconhecer a realidade, pois está embriagado em fazer da dúvida, ou melhor, do senso crítico, a base da sua compreensão, preparando um terreno fértil para a autorreferência característica do subjetivismo.
Existem níveis de racionalidade, e a nossa razão não pode ser usada sempre da mesma maneira. É necessário adaptar a razão à realidade, e isso, sim, é uma demonstração cristalina do que é a inteligência.
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